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Mas afinal, o que é Psicomotricidade?

Hoje este termo já nos é mais familiar, embora nem sempre seu conceito esteja claro. Até mesmo nas áreas médica, educacional e terapêutica sua definição parece não ser tão precisa. 

Este artigo tem como principal objetivo oferecer a você o conceito prático do que é a Psicomotricidade. Ao acordarmos pela manhã, para sentarmos, caminharmos, nos alimentarmos, praticarmos esportes, realizarmos atividades básicas de rotina, ou seja, ao executarmos todo e qualquer movimento corporal, necessariamente este movimento foi planejado pelo cérebro (sim, todos!). Chamemos a execução dos movimentos de MOTOR.

Nos dias em que estamos mais cansados, tristes ou até mesmo em estado de motivação e euforia, a qualidade destes movimentos se altera, podemos entender que há uma correlação entre nosso estado emocional e a forma como nos movimentamos. Chamemos a inferência emocional de AFETIVO.

Agora, quando aprendemos algo novo: quando desconhecemos por completo o assunto a assimilação do conteúdo habitualmente é um pouco mais lenta, ao passo que se é algo já familiar, amplia-se a rede de conceitos, resoluções e a compreensão do assunto tornam-se bem mais precisas, e isto ocorre em diversas e concomitantes “partes” neurológicas. Chamemos esta capacidade de assimilação e correlação das informações de COGNITIVO.

Estas três unidades  (cognitivo, afetivo e motor) trabalham em feedback constante umas com as outras, proporcionalmente e mediante à maturidade, ajustando-se mutuamente para a harmonia do sistema do indivíduo, sendo que cada uma delas possui milhares de variáveis.

Então a PSICOMOTRICIDADE compreende a capacidade de executar o movimento de forma coesa e precisa, desde seu planejamento até a sua realização, ou seja, é a correlação do COGNITIVO + AFETIVO + MOTOR. 

Quanto mais este sistema é retroalimentado, maior será o desenvolvimento em cada uma destas unidades, potencializando então a capacidade de gerenciamento delas; quanto melhor o gerenciamento, maior o refinamento, a precisão. 

O resultado disto é um indivíduo mais seguro, mais autônomo, com mais autoconhecimento e com melhor desempenho em sua comunicação.

E você querido leitor, como tem alimentado seu sistema?

A Psicomotricidade e o atendimento humanizado

P. em atendimentoQuero compartilhar um relato muito bacana envolvendo um atendimento a um paciente através da Psicomotricidade. O P. é um garotinho que teve um parto prematuro, possui microcefalia discreta, paralisia cerebral, e completou dois meses de tratamento.

Os relatos que recebi da mãe, e da enfermeira que o acompanha em tempo integral, é que através dos três pilares que envolvem a Terapia Psicomotora: Cognitivo, Afetivo e Sensoriomotor, o P. vem respondendo muito bem ao tratamento.

Ele ainda não possui domínio de movimento e postura com autonomia, porém vem demonstrando cada vez mais interesse pelas atividades, expressado em seu olhar, buscado conexão através do que chamamos de “diálogo tônico”, ou seja, linguagem não-verbal, além do fortalecimento muscular e melhora na capacidade de relaxamento.

Dentro de suas próprias possibilidades, ele se sente seguro e acolhido e, segundo a mãe do pequeno, a Psicomotricidade é a terapia na qual ele mais emite sons, relaxa mais ao término, pois demanda mais esforço físico de acordo com os estímulos apresentados. 

“A conexão gerada durante o tratamento, o olho-no-olho, o diálogo tônico é o que mais gera encantamento das famílias atendidas no consultório.”

 Através do olhar humanizado do atendimento, tudo muito lúdico e com planejamento adequado (em volume e intensidade), conseguimos excelentes respostas das crianças atendidas.

Os Neuroblocos Funcionais de Lúria

Para Alexander Lúria (neuropsicólogo soviético 1902-1977), as formas complexas de comportamento têm origem social, a partir da qual se desencadeiam processos que elaboram, armazenam e desenvolvem informações do mundo exterior e se programam e controlam ações que materializam intenções, obedecendo a uma organização estruturada, autorregulada e hierarquizada no cérebro. Assim cada processo de comportamento envolve um complexo sistema funcional baseado num plano ou programa de operações que conduz a um fim determinado. Desta forma, Lúria caracterizou o cérebro humano em três neuroblocos funcionais, dos quais dependem as funções que presidem ao trabalho do cérebro, implicando em todas as formas complexas de comportamento.

O primeiro deles relaciona-se ao tronco cerebral (mesencéfalo, ponte e bulbo) e particularmente à formação reticulada (que está dentro do bulbo), permite a manutenção da postura (tônus) necessária para o funcionamento das partes superiores do córtex cerebral, regula o nível de energia e o tônus do córtex garantindo-lhe uma base estável para a organização de seus vários processos, incluindo o da memória, funções de seleção e de vigília. Localiza-se no Bulbo o Centro Respiratório e Vasomotor (relacionado com ritmo biológico), fibras dos núcleos vestibulares (relacionadas com equilíbrio e a posição da cabeça). As áreas psicomotoras referentes são: tonicidade, equilibração, função de alerta. Estes dados permitem perceber a integração da postura e equilíbrio. O segundo está relacionado com as áreas posteriores dos hemisférios, córtex parietal, temporal e occipital. Encontra-se nas zonas posteriores do córtex (lóbulos occipital, temporal e parietal). Possui a funções específicas e hierarquizadas em zonas primárias e terciárias que compreendem a organização intraneurossensorial, interneurossensorial e é um complexo sistema de recepção, análise e planificação da informação que chega pelas vias táteis, auditivas e visuais.

As áreas psicomotoras referentes ao segundo neurobloco luriano são lateralização, noção do corpo, estruturação espaço-temporal.

Verificou-se que estas áreas psicomotoras encontravam-se também em déficit. Partindo do princípio de Lúria de que os neuroblocos seguem uma hierarquia, as intervenções englobaram também estas áreas psicomotoras para atingir o objetivo principal de equilíbrio postural e atenção. O terceiro neurobloco, relacionado com a parte anterior dos hemisférios principalmente o lobo frontal, proporciona planificação: programação dos movimentos e dos atos, a coordenação dos processos ativos (regulação) e a comparação dos efeitos das ações com as intenções iniciais (verificação). Possui funções de planificação, utilização e execução de praxias, intimamente relacionadas com as funções do tronco cerebral (atenção e concentração). As áreas psicomotoras referentes são praxia global e praxia fina. Todos os neuroblocos participam da atividade psíquica do indivíduo e na regulação de sua conduta; porém, a contribuição que cada um destes blocos realiza na conduta do indivíduo é muito distinta.

Referências: LÚRIA, Alexander Romanivich. Fundamentos de Neuropsicologia. Universidade de São Paulo. São Paulo, 1981. MACHADO, Angelo. Neuroanatomia Funcional. Rio de Janeiro – São Paulo: Livraria Atheneu, 1985.

Atenção e Aprendizagem

A Atenção é a manifestação cerebral do tônus. É a possibilidade de orientar a energia mental para determinado aspecto do real. Cognição é o ato ou processo de conhecimento, pelo qual a capacidade intelectual se expressa. Já a Escrita é uma representação gráfica da linguagem que utiliza signos convencionais, sistemáticos e identificáveis. Consiste em uma representação visual e permanente da linguagem que lhe outorga um caráter transmissível, conservável e veicular. A Formação Reticular, localizada no Tronco Encefálico, conecta-se ao cérebro, ao cerebelo e à medula. Ela é responsável pela regulação do sono, atividade dos motoneurônios (o que tem grande importância para a manutenção do tônus muscular) e também pela integração dos reflexos (do vômito, controle de respiração e controle vasomotor) que juntamente com o hipotálamo estão diretamente ligados a situações emocionais. Aqui evidencia-se a relevância no aspecto emocional em relação à manutenção do tônus e consequentemente ao controle motor. Considera-se que a atenção está ligada a funções de adaptação fundamentais como a função de vigilância e alerta relacionando-se ao primeiro neurobloco luriano.

Conservar a atenção sugere não só um controle inibitório, mas também uma tendência a integrar a informação, comprometendo todos os processos de comportamento que requeiram coerência, ordem e sequência de procedimentos não verbais como gestos e verbais como os símbolos, queixa relatada na anamnese e nos testes psicomotores da paciente. A função de vigilância se exprime corporalmente por um tônus muscular equilibrado que pode ser identificado na eutonia. A ação educativa em relação à atenção depende do trabalho corporal empreendido sob boas condições de relação entre o adulto e a criança, e a atenção da criança, no decorrer das situações-problema, estará centrada no objetivo a ser atingido, criando um “submodelo automático-reflexo” (controlado exclusivamente pelo córtex) em função do resultado obtido.

Assim a cognição mantém-se disponível para ajustar melhor as práticas às condições de desenvolvimento, ou seja, às atribuições espaçotemporais. Isto é o ajuste perceptivo motor e a criança passa do ajustamento global para o cognitivo, correlacionando informações interoceptivas com informações exteroceptivas (propriocepção). A programação motora inconsciente tornar-se progressivamente consciente pela solicitação da representação mental, da qual depende a evolução da representação corporal, daí a importância da noção corporal. É o ajuste postural solicitado no momento do aprendizado da escrita, que em condições estáticas corresponderá à etapa de organização inicial. A programação mental intervirá nos ajustes sequenciais e necessitam do encadeamento de práticas sucessivas, em ordem determinada e dentro de limite de tempo.

Essas experiências de ajuste a diferentes situações-problema provocam na criança segurança e confiança em si mesma, do que depende seu equilíbrio emocional e afetivo. É na origem “poder agir” que se constitui a imagem de si mesmo, em duas vertentes: a energética e a operativa, suporte para a autoconfiança. De acordo com estas informações, para a obtenção da atenção, é necessário primeiramente obter um controle tônico por meio de um trabalho relacional (psico) e corporal (motor). A educação da atenção é essencial e precede a todo o ensinamento e aprendizagem, e esta última por sua vez é um processo de mudança de comportamento obtido pela experiência construída por fatores emocionais, neurológicos, relacionais e ambientais. A evolução da aprendizagem envolve fundamentalmente a necessidade de uma grande integração sensorial. Esta integração é elevada ao Sistema Nervoso Central, em que é organizada, armazenada, elaborada e reintegra os seus efeitos (feedbacks) para originar as respostas e as reações motoras. À medida em que a criança aprende qualquer aquisição, a estrutura psicológica e os arranjos dos substratos neurológicos mudam. Portanto, o cérebro e a motricidade estão em constante integração, que é fundamentalmente processada por meio de um constante diálogo entre o centro e a periferia, existindo entre eles um continente que é o corpo, que tem de ser organizado. O primeiro intercâmbio entre o bebê e seus pais ou responsáveis marca o modo de comunicação que ele vai adotar por toda a vida: é o primeiro passo da aprendizagem. Se for estimulado a observar e a imitar a si mesmo, aprenderá a conhecer e a diferenciar suas sensações. Quanto mais depressa surgir uma resposta a seu movimento, mais intensamente o bebê se conscientizará de que existem sinais interdependentes.

A criança aprende a comunicar-se somente pelo feedback que o meio (ambiente e família por exemplo) proporciona, gerando um sistema de intercâmbio, que ela mesma poderá acionar. A criança percebe que por meio de um sinal (movimento) pode expressar algo (comunicação), concretizando assim a aprendizagem. Por consequência, os seres humanos necessitam de oportunidades precoces para aprenderem no sentido de desenvolverem o seu máximo potencial; a privação de experiências motoras básicas pode prejudicar o desenvolvimento subsequente. As dificuldades de aprendizagens simbólicas (ler, escrever, cálculo) refletem sempre uma integração disfuncional por parte da criança das noções do corpo, do espaço e do tempo. Há autores que afirmam que as crianças com dificuldade de aprendizagem têm vários problemas atencionais, perceptivos, emocionais, de memória, de simbolização, e evidentemente de comportamento. Estas noções constituem as bases motoras das performances escolares e são imprescindíveis para a organização do seu sistema de aprendizagem. Para Piaget, para alcançar estas as aprendizagens simbólicas (verbais), a criança deverá vivenciar as aprendizagens não simbólicas (verbais), anteriormente já conseguidas, conservadas e consolidadas: posturas, desenhos, jogos, cantos, danças, músicas, rimas, parlendas, a partir das quais a introdução de novos elementos e variáveis permitirá então novas adaptações integradas, e consequentemente novas aprendizagens. A incorporação dos símbolos, por sua vez, só é possível por meio da motricidade da criança. É com esta experiência motora que a criança irá construir imagens, esquemas e formas de pensamento baseadas na incorporação de dados sensoriais e na antecipação de dados motores.

Referências: HAMZE, Amélia. O que é Aprendizagem? Disponível em: <http://www.educador.brasilescola.com/trabalho-docente/o-que-eaprendizagem.htm>. Acesso em 12/01/20210. FONSECA, Vitor da. Manual de Observação Psicomotora- Significação Psiconeurológica dos Fatores Psicomotores. São Paulo: Artes Médicas. 1995. LE BOULCH, Jean. O corpo na escola no século XXI: práticas corporais. Phorte. São Paulo, 2008. LÚRIA, Alexander Romanovich. El Cérebro Humano y los Processos Psíquicos. Fontanella. Barcelona, 1979.

LÚRIA, Alexander Romanivich. Fundamentos de Neuropsicologia. Universidade de São Paulo. São Paulo, 1981. LOUREIRO. Sistema de Avaliação em Psicomotricidade – Manual do Exame Psicomotor. São Paulo: ISPE-GAE. 2008. MACHADO, Angelo. Neuroanatomia Funcional. Rio de Janeiro – São Paulo: Livraria Atheneu, 1985. MOLCHO, Sami. A Linguagem Corporal da Criança: entenda o que ela quer dizer com gestos e sinais. São Paulo: Gente, 2007.

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